sábado, 26 de abril de 2008

Por que?

Há um tempo que não fazia esta pergunta: por que? Parece genérica, mas vou lhes explicar a história.

Sempre fui uma pessoa tímida em ambientes sociais. Sou do interior, vivi toda a infância em uma chácara. Estudei até a quarta série em um colégio em frente à minha casa. Ao passar para a quinta série, fui obrigado a estudar no centro da cidade. Lembro muito bem do medo que senti. Embora fosse considerado um bom aluno, o receio vinha do convívio diário com um tipo de pessoa que não conhecia: pessoas da cidade. Talvez uma sensação parecida seja a de alguém (inseguro) que está prestes a fazer um intercâmbio nos EUA. É o encontro com pessoas que você não tem a mínima idéia de como irão se comportar, em que a única certeza é de que a auto-estima delas é muito maior do que a sua, e elas irão lhe ridicularizar até você se sentir aquilo que sempre teve medo de se tornar: um idiota.

Bem, digo que foi um episódio traumatizante. Ao chegar na escola, encontrei várias crianças gritando. Ao longe, eram algazarras quaisquer. Mas, ao me aproximar, os olhares se voltavam para uma única direção e as palavras que insistiam em ser pronunciadas eram "japinha" e "arigatô", dentre frases e combinações mais elaboradas. Já dá para ter uma idéia do constrangimento que consumia o pequeno cidadão asiático. Naquele momento, vi que a minha inclusão social passaria por duras provas.

Posso dizer que na primeira semana de aula passei pelos piores dias da minha vida. Infelizmente, minha casa era bastante longe do colégio. A aventura começava pelo trajeto para pegar o ônibus: eram 3km de estrada de terra batida. Pegava minha bicicleta e partia até a casa de um amigo que mora perto do ponto de ônibus, onde a deixava durante o dia. Após, pegava o transporte e viajava 25 minutos até o colégio. Enfim, caminhava mais 6 quadras até chegar ao meu destino. Tudo isso para ser recebido por gritos e gestos ridicularizando a minha pessoa. Havia um grupo que ficava sentado na calçada e fazia isso todos os dias, religiosamente. Depois de uns dias, comecei a passar por eles olhando para o outro lado, como se os #@%& não fossem para mim. Porém, isso ainda me machucava. Apesar de todo sofrimento, não queria aparentar tal sentimento para os meus pais. Assim, o único momento de desabafar era no banho. Chorava todo a dor acumulada do dia anterior e um pouco da que iria vir. É difícil descrever o momento em que a sua mãe bate à porta do banheiro perguntando o que está acontecendo e você engole o choro para soltar um pouco convincente "nada".

Enfim, esse foi o primeiro momento em que me flagrei perguntando "por que?". Por que as pessoas me odeiam? Por que isso acontece? O que fiz a elas? Isso não é injusto? Por que nasci assim? Por que?

Ao longo dos anos, fiz essa pergunta várias vezes. Principalmente na graduação, onde sofri muito por causa de pessoas que faziam o mal a mim sem esconder. Mas quero explicar o porquê do último "por que?". Hoje, fui convidado para o aniversário de uma amiga. Como de costume, em reuniões entre amigos, vou diminuindo minha participação na conversa ao longo do tempo. Não é algo que eu queira, e sim uma característica da minha personalidade. Porém, em dado momento, tem sempre alguém que chama atenção para esse fato. Quando isso se dá de maneira a me ridicularizar, apesar da aparente aceitação da brincadeira, fico extremamente magoado. Se eu fosse uma pessoa inconseqüente e tomada pelo impulso, certamente reagiria à ofensa. Porém, acredito que o mal que fazemos a uma pessoa sempre retornará a ela, pois o equilíbrio é a essência de tudo. Assim, guardo a dor para mim, sabendo que a natureza vai se encarregar do resto.

Confesso que fiquei muito decepcionado com as pessoas. Não sei qual o motivo que as levam a atacar alguém sabendo que vão atingí-lo. Se fizerem isso, que seja com alguém que não se magoe ou que elas não gostem (será que não gostam de mim?). Não sou um anjo, também faço brincadeiras, mas quando vejo que elas se magoam trato logo de pedir desculpas. Para piorar, tristeza maior só a necessidade de transformar uma rede de amizades já escassa em um grupo ainda menor.